23 de abril de 2012

Ser padre? para quê?

 

      Queridos irmãos e irmãs, há tempos não publico nada de textos próprios. Ando meio ocupado com as atividades da faculdade, mas minha cabeça ainda continua repleta de pensamentos e reflexões, ainda mais nessa etapa da minha vida!

      Quando me refiro nesta etapa da minha vida, digo mais especificamente nos últimos passos da formação para o presbiterato, para o ser padre. Quando me vejo no último ano me vêm dois sentimentos: angústia e gratidão. Angústia por me achar indigno de tão sublime missão: estar à frente de uma comunidade eclesial, caminhando com os irmãos e irmãs, como Povo de Deus, rumo ao Reino. E gratidão a Deus por me confiar esta missão e por me chamar, apesar de eu não o merecer.

      Nessa etapa muitas pessoas já nos aludem ao futuro próximo, “quase-padre”, “padre”, às vezes nem nos consideram mais como um simples seminarista, mas alguém que já está “quase lá”. Aí nos vem o questionamento sobre esse “ser padre” diante de uma comunidade, diante de Deus e na Igreja. Nos vem as aulas de teologia, das compreensões do exercício do ministério na Igreja e para a Igreja.

      Outro fator que contribui para a reflexão é a colocação de amigos de caminhada que interpelam as razões da nossa caminhada e o que buscamos. Parece que nos encontramos diante da comunidade primitiva, a qual se dirige a Carta de Pedro, onde o autor afirma que é necessário que demos razões da nossa esperança (1Pd 3,15). E é isso que quero refletir brevemente neste texto.

      Parafraseando Santo Agostinho: Aterroriza-me o que sou para vós, consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou “pastor”; convosco sou cristão. Essa frase de Santo Agostinho parece-nos fundamental para esta reflexão. Claro que está inserida num contexto determinado, mas ainda se faz atual e gostaria de utilizá-la na minha compreensão de serviço presbiteral na Igreja. Acredito que o ser padre é em primeiro lugar, ser cristão, ser um irmão entre os irmãos! Pois é da comunidade eclesial que descobrimos o Chamado de Deus em nossa vida!

      Saimos da Comunidade e nos preparamos para servi-la. O presbiterato só encontra sua razão no serviço à Comunidade. Estar a serviço do Povo de Deus é, estar a serviço do próprio Deus e da Igreja. Não somos ordenados apenas para a “execução” ou celebração dos sacramentos, mas para estar, em primeiro lugar a serviço, o lava-pés (Jo 13, 13-14). Participar da vida da comunidade nos leva a celebrá-la, elevar a Deus as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de todo o Povo de Deus (Eucaristia), Evangelizar (Anúncio) novos cristãos para que, conhecendo a Jesus e seu Projeto, possam aderir à fé e ingressar na Comunidade (Batismo), encontrando na Comunidade as forças necessárias para superar as enfermidades (Unção dos Enfermos), reconhecendo suas limitações (Penitência) e ser sempre firme na construção do Reino (Crisma) e se necessário consagrar toda a sua vida ao Reino (Ordem e consagração religiosa).

      Acredito que o ser padre supera apenas a “profissionalização” do presbiterato, mas o ser Igreja com a Igreja, estar em comunhão com todo o presbitério, com o bispo (sucessor dos apóstolos e símbolo de toda a unidade da Igreja). É, como animador e presidente das celebrações, ajudar a vida litúrgica (não mero rito) de toda a Comunidade. Para que possa rezar e elevar a Deus toda a sua vida e agradecer a Sua ação na sua vida e na sua história. É contribuir na construção do Reino, como cristão, como irmão entre irmãos, no serviço a Deus na Igreja, junto com os irmãos e irmãs de nossas comunidades, sendo um sinal, um sacramento na Comunidade.

      Esta é a reflexão que gostaríamos de partilhar… como partilha está aberto a sugestões, opiniões, para que possamos crescer como irmãos e como  Igreja!

16 de fevereiro de 2012

Novo Arcebispo de Campinas: Dom Airton José dos Santos!

É com muita alegria e esperança que acolhemos em nossa Arquidiocese Dom Airton José dos Santos, nosso novo Arcebispo!

Dom Airton, seja bem-vindo! Nós o acolhemos com nossos braços abertos. O povo de Campinas sempre tratou bem seus pastores. Nosso povo é, com toda a certeza, um povo que ama a Igreja de Campinas!

Que a Imaculada Conceição interceda por seu ministério de pastor, irmão e servidor no meio desse povo!

A posse de Dom Airton está marcada para o dia 15 de Abril, às 10h00 na Catedral Metropolitana de Campinas.

Biografia


Dom Airton José dos Santos nasceu na cidade de Bom Repouso, no Sul de Minas Gerais, no dia 25 de junho de 1956, primeiro dos sete filhos do casal José Julião dos Santos e Benedita Vieira da Fonseca. Em 1964, a família mudou-se para a Vila Vivaldi, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Permaneceram na cidade até 1967, quando mudaram-se para a Vila Sacadura Cabral, na cidade de Santo André. Em 1979, aos 23 anos, o jovem Airton ingressou no Seminário da Diocese de Santo André.
Realizou o Curso de Filosofia no período de 1979 a 1981, nas Faculdades Associadas do Ipiranga (FAI), em São Paulo, obtendo o título de Bacharel em Filosofia com Licenciatura Plena. No ano seguinte, em 1982, ingressou no Curso de Teologia da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, no Ipiranga, em São Paulo.
Foi ordenado Diácono no dia 31 de agosto de 1985 e Presbítero no dia 08 de dezembro do mesmo ano, por Dom Cláudio Hummes, então Bispo da Diocese de Santo André.
Iniciou o seu ministério sacerdotal em março de 1986, como Vigário Paroquial da Paróquia Imaculada Conceição, em Diadema, SP. Em 1987, foi nomeado também como Diretor e Formador na Casa de Formação dos Seminaristas da Filosofia do Seminário Diocesano de Santo André, cargo que ocupou até o final de 1997. Neste período, entre 1986 e 1997, exerceu outros serviços na Diocese como Vigário Regional da Região Pastoral de Diadema; Coordenador Diocesano da Pastoral Vocacional; Administrador Paroquial da Paróquia Imaculada Conceição, em Diadema; Coordenador Diocesano da Pastoral Familiar; membro do Conselho de Presbíteros; e membro do Colégio de Consultores.
No período de agosto de 1998 a junho de 2000 permaneceu em Roma, residindo no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, onde obteve o Título de Mestre em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
De volta a Santo André, foi nomeado por Dom Décio Pereira, Bispo Diocesano, em outubro de 2000, como Chanceler do Bispado e, em setembro do mesmo ano, como Ecônomo da Diocese. No dia 18 de março de 2001, foi nomeado Pároco da Catedral Diocesana de Santo André, sucedendo a Dom Manuel Parrado Carral, até esta data Pároco da Catedral, nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo.
No dia 19 de dezembro de 2001 foi nomeado pelo Papa João Paulo II como Bispo Titular de “Felbes” e Auxiliar para a Diocese de Santo André. Recebeu a Ordenação Episcopal no dia 02 de março de 2002, em São Bernardo do Campo, Diocese de Santo André, sendo sagrante Dom Décio Pereira e Co-Sagrantes Dom David Picão e Dom Manuel Parrado Carral. Tomou posse na Quinta-feira Santa do mesmo ano, sendo apresentado ao Clero e ao Povo, na Missa dos Santos Óleos.
Escolheu como lema episcopal “Ut faciam Deus, voluntatem tuam” (Hb 10,9), que quer dizer: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade”.
Com o falecimento do Bispo Diocesano, Dom Décio Pereira, no dia 05 de fevereiro de 2003, Dom Airton foi eleito pelo Colégio de Consultores como Administrador Diocesano de Santo André, cargo que ocupou até a nomeação de Dom Nelson Westrupp. Dom Airton permaneceu como Bispo Auxiliar, em Santo André, exercendo as funções de acompanhamento das Pastorais Familiar, da Juventude, da Educação e do Ensino Religioso e a função de Secretário do Conselho Episcopal do Regional Sul 1 da CNBB.
No dia 04 de agosto de 2004, o Papa João Paulo II o nomeou Bispo da Diocese de Mogi das Cruzes, onde tomou posse canônica no dia 26 de setembro de 2004.
Na 74ª Assembleia dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, realizada entre os dias 07 de 09 de junho de 2011, em Aparecida, Dom Airton foi eleito Presidente do Sub-Regional São Paulo II e Presidente da Comissão para a Liturgia.
No dia 15 de fevereiro de 2012, o Papa Bento XVI nomeou Dom Airton como o sétimo Bispo e quinto Arcebispo da Arquidiocese Metropolitana de Campinas.
Saudação
Aos amados irmãos e irmãs da Arquidiocese de Campinas
A paz esteja convosco!
UT FACIAM DEUS VOLUNTATEM TUAM
“Para fazer, ó Deus, a tua vontade!”
Com esta expressão respondi, em meu coração, às palavras do Exmo. Sr. Núncio Apostólico, Dom Lorenzo Baldisseri, após ter dito que o Santo Padre me havia nomeado para suceder ao saudoso e amado Dom Bruno Gamberini na Arquidiocese de Campinas.
Quero saudar, com sentimentos de fraternidade e estima, o Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Gilberto Pereira Lopes, Arcebispo Emérito de Campinas; os Excelentíssimos Srs. Bispos da Província Eclesiástica, os que estão à frente do trabalho de pastorear a grei do Senhor e, com reverência e respeito, os que já são eméritos.
Saúdo com afeto paterno, os Padres, Diáconos e seminaristas da Arquidiocese. Desde o primeiro momento, vos tenho em minhas orações e em meu coração. Saúdo e acolho com grande esperança, as Religiosas, os Religiosos e todos os consagrados que estão presentes e fazem parte da vida eclesial de nossa querida Arquidiocese. Com grande esperança no futuro, deixo-me inspirar pelas palavras do Santo Padre na mensagem para o 49º dia mundial de oração pelas vocações, convidando os presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, catequistas, agentes pastorais, os que trabalham na educação das crianças, adolescentes e jovens, a estarem atentos àqueles que nas comunidades paroquiais, associações e movimentos, sentem-se chamados para o sacerdócio ou para uma especial consagração. Trabalhemos para que muitos aprendam a responder com generosidade ao amoroso chamado de Deus.
Com sentimentos de pastor, saúdo a imensa multidão dos cristãos leigos, que dia a dia testemunham o grande amor de Deus. Amados irmãos, vamos trabalhar para que o Senhor Jesus Cristo seja conhecido, amado, respeitado. Vamos nos esforçar e nos ajudar mutuamente para que o Evangelho chegue a todos: queremos viver como discípulos-missionários.
Com sincero gesto de reconhecimento, saúdo as autoridades constituídas e todos os que em nossa Arquidiocese desempenham ações, assumem encargos e serviços em prol da população. Especialmente saúdo os que trabalham diretamente em benefício dos menos favorecidos, dos pobres e dos que estão à margem da vida.
Aos que pertencem a outras comunidades cristãs e a outras Igrejas e Denominações; a todos os que crêem em Deus e a todos os de boa vontade, saúdo e cumprimento em Cristo, Caminho, Verdade e Vida.
Saúdo com respeito a todos os profissionais da educação, da saúde, dos meios de comunicação; saúdo os que estão no campo da política e nela, se esforçam em promover a dignidade dos mais sofridos.
Saúdo aqueles que, dia a dia, lutam para sobreviver: os pobres, os doentes, os desempregados e tantos outros rostos sofredores. Esta saudação seja a expressão da solidariedade e da fraternidade, exigências da fé que professamos.
Por fim, abraço e acolho a todos para, juntos, trilharmos o caminho da vida cristã e darmos o testemunho que o mundo necessita. Para isso, cada pessoa, lá onde Deus a colocou, viva na certeza de que me coloco disponível ao serviço do Evangelho e da Igreja.
Dom Airton José dos Santos
Fonte: Site da Arquidiocese de Campinas

5 de dezembro de 2011

O sacramento da casa

 

casaEvidentemente não se viaja só para chegar. Mas numa viagem o bom mesmo é a chegada. Penso na chegada de regresso. Chegar é como ancorar tranqüilo no porto seguro depois de passar por toda sorte de possíveis perigos. Há tantos que viajam e nunca chegam… A chegada é boa porque o homem não vive por muito tempo sem casa ou fora de casa. A casa é a porção do mundo que se tornou sacramental, doméstica, humana, onde cada coisa tem seu lugar e seu sentido. Onde não há nada de estranho. Onde tudo é exatamente familiar. As coisas da casa possuem vida e moram com os homens. Por isso, nada mais horrível do que os casarões imenson, supérfluos e vazios. Não são familiares. Neles não há penates. As coisas moram, não como bons espíritos, mas apenas como coisas possuídas por vaidade e ostentação. Não vivem. Por isso tornam sinistra a casa do opulento vaidoso.

Só sabe existencialmente o que significa casa paterna e familiar quem teve de viver fora dela. Anos a fio. De repente regressa como eu em 1970. Já de longe, do navio, se avistavam as fímbrias da pátria. O caração bate e há um grande estremecimento. À medida que o navio se aproxima a gente vai sentindo envolvido pela familiaridade. O medo é banido. Até a morte parece doce: aqui, sim, poderíamos deixar a morte acontecer! Porque se morreria nos braços aconchegantes e familiares da pátria. Chegamos! Os braços são efusivos. Estamos na estrada que nos leva até a casa: tudo é olhado, estudade e redescoberto como quem abraça com os olhos velhos amigos: a serra ao longe, as árvores, as curvas do caminho. Enfim a casa, melhor o convento, a casa familiar de todo frade. É o mesmo de outrora. O mundo girou e mudou. A gente mudou e girou: entretanto ele está lá fincanco firme na pequena elevação. Depois de abraçar todo mundo, a gente quer ver a casa e cada canto. Tudo nela é importante: “era esta a sala…”, aqui se estudou duro; acolá, na capela, se rezou e se tentou, numa terrível guerra diária com o sono – levanta-se cedo naqueles tempos…- agarrar Deus e discutir com Jesus Cristo; lá estava a biblioteca escura, o corredor chamado Paraíso, a cela estreita onde se viveu. Os objetos se fazem vivos. Depois lá fora: é preciso saudar as árvores, cumprimentar os caminhos ao redor do morro e rezar à Virgem ba gruta como se fazia outrora sempre às 9,30 da manhã. Tudo volta a ser familiar. Como é bom poder dizer: Enfim, estou em casa! Ao dizer isso reboa nas profundezas da alma tudo o que arquetipicamente significa aconchego, espontaneidade, simplicidade e alegria de ser na familiaridade com todas as coisas.

É porque a casa toda é um grande sacramento. Cada coisa dentro dela participa desta sacramentalidade. Tornam-se também sacramentos: a sala de recreio, o refeitório, os quartos, a biblioteca, os quadros da parede, as estátuas, as folhagens nos corredores, as velhas escadas. Tudo é de alguma maneira sagrado e sacramental. Não se viola uma casa. Ela é um santuário. Não se convida, sem mais nem menos, alguém para entrar em casa. Porque nela há uma sacramentalidade e só os iniciados na amizade e no amor podem saborear conosco da familiaridade de todas as coisas da casa.

Reparando-se bem, a casa é um sacramento denso e fontal. A partir dela a cidade começa a se tornar também sacramental. A região toda onde está a cidade. O Estado onde está a pátria. Por fim, para o astronauta na lua, a terra onde está o continente: ela é também é sacramental. Por isso podia o astronauta Erwin ponderar: “A lua é linda; o céu, profundo e maravilhoso. Mas somente na terra o homem pode morar. Como não era aconchegador aquele planeta verde lá embaixo… Lá hpa alguém que pensa em mim, me olha e me espera”.

O sacramento fontal da casa vai se alargando em círculos que se abrem mais e mais até abrangerem tudo. Talvez, quando o homem sair do sistema solar; o próprio sistema, com toda sua vastidão, começará a se tornar sacramental – diferente de todos os outros – porque dentro dele gira a terra, onde há um continente, uma pátria, um Estado, uma região, uma cidade e uma casa familiar: Por causa desta casa, velha, com escuros corredores, com celas estreitas, sem água encanada, franciscanamente pobre, ele, de noite, se porá a ouvir estrelas e se fixará no planeta terra, onde se concentra todo o sentido de universo. É que a casa está lá, sacramento familiar. Como se vê, o sacramento pode abranger tudo, na medida da abertura do coração.

De Leonardo Boff em Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos.

28 de novembro de 2011

O sacramento do professor primário

 

profEle era quase um mito. Nas populações do interior, onde ainda não chegaram os grandes meios de comunicação com seus super-heróis, ele era considerado um herói, um sábio, um mestre, um conselheiro. Sua palavra virava sentença. Sua solução um caminho. Quem era esse imortal? O sr. Mansueto, professor de escola primária, em Planalto, Santa Catarina, vila de colonos italianos. Para os que o conhecemos e fomos seus alunos ele representou o símbolo sacramental de valores fundamentais da existência como idealismo, abnegação, humanidade, amor ao próximo, sabedoria da vida. Os valores não se comunicam abstratamente. Proclamando-os ou defendendo-os. Mas concretamente. Vivendo-os e referindo-os a pessoas que os encarnaram em suas vidas.

O Sr. Mansueto era uma destas aparições. Não sei se com o passar dos anos a tendência do espírito é mitizar experiências do passado; mas no caso do nosso querido professor primário o mito talvez seja a forma de melhor conservar a riqueza de sua história simples e concreta. Na vila, ele sobressaía como um pinheiro sobressai no meio da macega ou dos campos de gado, ondulados e verdes.

O Sr. Mansueto era principalmente um idealista. Formado em humanidades no rigor do seminário antigo, em contabilidade, em direito por correspondência (naquele tempo havia tais coisas…) e em não sei quantas coisas mais, esse homem franzino, magro, mas de uma elegância agreste com sua bela cabeça inteligente, deixou tudo, para, no mato, ensinar e libertar da ignorância e do abandono os primeiros desbravadores do interior catarinense. Para nós ele foi sempre um mistério: num mundo sem qualquer cultura, ele possuía uma biblioteca de cerca de 2 mil livros que emprestava para todo mundo, obrigando os colonos e seus filhos a lerem, estudava os clássicos latinos na língua original, entretinha-se com alguns pensadores como Spinoza, Hegel e Darwin e assinava o Correio do Povo, de Porto Alegre. Tinha aulas de manhã e de tarde. À noitem antecipando-se ao Mobral, ensinava aos mais velhos. Ao lado disto mantinha uma escola para os mais inteligentes, ministrando-lhes um curso de contabilidade. Formou uma roda com quem discutia política e cultura. Os grandes problemas sociais e metafísicos preocupavam a alma inquieta deste pensador anônimo da insignificante vila interiorana. Jamais esquecemos sua aegria quando, várias vezes, solicitado por seus antigos alunos, já cursando a universidade, para fazer no lugar deles estágios em casa sobre problemas de direito constitucional, da legetimidade do poder por uma revolução vitoriosa ou temas de história pátria, era informado que a nota tinha sido 10.

Esse homem era professor primário. Já na escola nos ensinava as primeiras palavras em grego e latim e fornecia aos alunos rudimentos de filologia. Com que orgulho recitávamos estas palavras depois do ginásio… Na escola transmitia tudo o que um homem, formado apenas nessa universidade primária, devia saber: noções de ecologia, juros, medição de terras, legislação civel, princípios de construção de casas, religião como visão de Deus no mundo que nos cercava.

Quando se comercializou o rádio, adquiria aparalhos e obrigava a todos os colonos a comprá-los. Montava-os ele mesmo com o fito de abrir suas mentes aos horizontes vastos do mundo, a fim de que aprendessem português (a maioria falava italiano e uns poucos alemão) e se humanizassem. Aos que se recusavam, usave sempre um expediente eficaz: montava o rádio em cima de um toco, na frente da casa. Ligava-o alto e ia embora. Quando a penicilina foi democratizada foi ele que salvou a vida de dezenas, alguns até já desenganados pelos médicos. Sua fama aumentava ao nível da fé cega dos colonos em suas receitas que ele estudava em livros técnicos e nos remédios que comprava em farmácias distantes. Atuava como advogado dos caboclos e pretos fortemente discriminados pela população imigrante. Quantas vezes não ouvíamos da boca deles: “Deus no céu e o Sr. Mansueto na terra!”

Morreu cedo de estafa e esgotamento pelos trabalhos que fazia em função de todos e da numerosa família. Sabia que ia morrer. Sentia-o pelo coração cansado. Acariciava a morte como amiga e sonhava palestrar com os grandes sábios no céu e fazer grandes interrogações a Deus. Morreu a mais de mil km de distância do lugar. O povo reclamou seu corpo. Foi uma apoteose. Começou-se uma verdadeira mansuetologia como memória e interpretação de sua vida, suas palavras e seus gestos. O povo não inventa. Aumenta. Idealiza e magnifica. Transformou-o em símbolo de um tipo de humanidade comsagrada aos outros até o extremo da autoconsumação.

Leitor amigo, se um dia passar por uma pequena mais ridente cidade como o nome que leva, Concórdia, e visitar o cemitério, repare bem: se encontrar um túmulo com um belo dístico, com flores sempre frescas e já alguns ex-votos perto da grande cruz, à esquerda, então é do professor Mansueto. Ele vive ainda na memória daquela gente.

De Leonardo Boff em Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos.

21 de novembro de 2011

O sacramento da estória da vida

 

Presente Passado Futuro

Há momentos na vida nos quais a consideração do passado constitui a verdade do presente. Mostra-lhe o sentido e sua razão mais profunbda. Vendo-se mais de perto, o passado, na verdade, deixa de ser passado. É uma forma como se vive o presente. Uma experiência significativa do presente abre uma paisagem nova na contemplação do passado. Ela estava lá. Mas ninguém podia vê-la. Porque faltavam os olhos. A experiência do presente cria novos olhos para ver coisas antigas. Então elas ficam novas como o presente.

O passado aparece então, não como um suceder anódino de fatos, mas como uma corrente lógica e coerente. Um nexo misterioso liga os fatos. Emerge um sentido patente, antes latente no rio da vida. Houve um plano que se foi desdobrando lentamente, como a gente vai desdobrando um mapa geográfico de uma região. No emaranhado dos dados, destacam-se as cidades, os rios, as estradas ligando os principais pontos. A região é mais terra incógnita. A região mapeada tem sentido para o viajente. Ele anda sem errar porque vê o caminho.

Algo semelhante ocorre com a vida. Ela vai inscrevendo pontos. Vai abrindo caminhos. Ninguém sabe bem para onde eles podem conduzir. Mas são caminhos.  De repente acontece algo muito importante. No mapa da vida aparece um ponto como uma grande cidade. Para ela correm os caminhos. Passam os rios. Cruzam os aviões. A vida começa a ganhar sentido porque temos um ponto de apoio e uma elevação importante donde podemos ver a paisagem ao derredor. Formou-se a corrente coerente da vida!

Esse presente é uma ecperiência muito profunda. Preparada. Sofrida. Purificada por crises. Madura. Houve uma decisão que empenhou toda a vida. A salvação e a perdição. O homem preferiu a sua palavra. Definiu-se perante a vida. Não pode mais borrar a palavra empenhada sem trocar o curso da existência. A partir desta decisão olha para o passado. relê tudo em função deste presente: como foi sendo concebido, gestado, configurado até enfim nascer. A gente lê o sentido da vida a partir de um passado que culmina neste presente.

Concretamente: na noite de 14 de dezembro de 1964, 18 jovens decidem se ordenar sacerdotes. No vigor deos 26 anos. Amanhã será, enfim, a ordenação! Esse dia foi preparado durante 15 anos. Amanhã serei revestido de Cristo, na força de poder representá-lo, de poder emprestar-lhe a presença, a voz, os gestos, o corpo. O homem treme, tanto mais quanto aprofunda o significado de tal audácia misteriosa e conscientiza o abismo que medeia entre o Pecador e o Santo. No jogo da vida irá representar o papel de Cristo. Como em todo o jogo, isso é absolutamente sério. Houve a ordenação. A gente sobreviveu à erupção do Mistério. Uma semana após celebraram-se as primícias ou a primeira missa solene entre parentes e amigos, na terra, onde tudo começou.

Todos vêm. Os olhos cheios de respeito. Arquétipos primitivos são ativados: todos temem se aproximar daquele que foi consagrado. Mas o arquétipo familiar quebra o tabu. Começam os comentários, especialmente das tias mais idosas, destas que carregaram a criancinha, agora neo-sacerdote, no colo e viram as primeiras travessuras infantis. “Eu sempre dizia: desde pequeno ele tinha inclinação para padre. Com cinco anos já celebrava missa, vestido com um velho capote, e fazia sermão para os irmãozinhos!” Um antigo empregado recorda: “Uma vez ele subiu em cima de um toco. Fez um sermão ao estilo dos capuchinhos. Condenou um irmão ao inferno. Houve reação dele. Caiu. Fincou um estrepe. Teve até de ser operado na perna!” Cada um ia ligando fatos; a corrente ia se fazendo até culminar no dia das primícias.

Eu mesmo só me lembro do dia 09 de maio de 1949. Até lá nunca pensei em ser padre. Havia uma sadia tradição anticlerical na família, herança preciosa que todos até hoje levaram. Veio um padre. Era um carioca. Falou das vocações sacerdotais. De S. Francisco e de Santo Antônio. Da grandeza de ser outro Cristo na terra. E arrematou: quem quiser ser padre levante a mão! Eu ouvi tudo. Senti um calor incrível. Fui invadido por um fogo no rosto que tornou eternidade a curta duração entre a pergunta e a resposta com o levantar a mão. Alguém em mim levantou minha mão. Fui anotado. Meu pai notificado. Depois, em casa, chorava porque fizera isso. Por que ser padre? Eu queria ser chofer de caminhão, a vocação mais sublime que havia, pois conduzia e domava monstros como eram, para nós, os antigos caminhões. Mas uma palavra tinha sido proferida e definido a vida.

Entrei no seminário. Os elos se foram construindo. Só agora, na noite de 14 de dezembro de 1964, posso uni-los. Meu Deus, eles fazem uma corrente! Ainda reboam as palavras que todos proferimos: “Senhor, na simplicidade de meu coração, alegre, Vos ofereci tudo…” E o povo que estava derredor dizia: “Conservai-lhe, Senhor, esta santa vontade!” A vida é feita de releituras do passado. Cada decisão importante no presente abre novas visões do passado. Cada fato ocorrido ganha sentido como fio condutor e secreto que carregava latentemente o futuro que agora se faz presente. O fato passado antecipa, prepara, simboliza o futuro. Ele assume um caráter sacramental.

De Leonardo Boff em Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos.

14 de novembro de 2011

O sacramento da vela natalina

 

vela natalina

A neve caía lá fora, leve… leve. Cobria já todos os campos com espesso manto branco. Só se via um mar de neve, com fantasmas escuros, os ciprestes, aqui e ali, assustando o olhar. Para um homem vindo dos trópicos, isso não deixava de ser um espetáculo deslumbrante. Era véspera de Natal. O primeiro Natal fora da pátria. Um misto de melancolia e de saudade e ao mesmo tempo de expectativa e serenidade interior aumentada pela atmosfera de inverno rigoroso de 22º abaixo de zero. Berchtensgaden, pequenina cidade no extremo-sul da Alemanha. Uma das paisagens mais soberbas da Baviera, apenas maculada pelo nome de Hitler que lá construiu no coração da montanha sua D-Haus, espécie de esconderijo que nunca chegou a usar.

O conventinho franciscano, no centro da cidadezinha, quase se perde no alvor da neve sob o espesso cinza do céu opaco. Só a torre pontiaguda fura o céu de neve. Passei a tarde perambulando de bengala pelas ruas enfeitadas. Segundo o costume local, nas janelas ardiam lanternas. É sinal que o Menino vem. Ele passa uma só vez. Há que estar preparado.

À tardinha ouvi muitas confissões, especialmente de franceses, que nesta época começavam a fazer esporte de inverno nas altas montanhas da redondeza. Evidentemente todos queriam se preparar para o Natal. Nós padres quase não temos tempo para nos preparar. Ajudamos os outros a se preparar. Nem festejamos bem o Natal. Estamos servindo àqueles que querem festejá-lo. À noite, na missa das 18 horas, enquanto todos se voltavam para o Pequeno no presépio e recordavam a sua História, nós no confessionário ouvíamos outras estórias de outros amores. Se ao menos nesse dia, pensei então, pudéssemos todos ouvir a mesma História, a História do Amor no mundo, da Proximidade de Deus que, de Grande e Imenso em sua glória, se fez pequeno e finito em sua benignidade.

Depois, pelas 23 horas, ouvimos fortes rojões. Com grande intensidade e de todos os lados, iluminando a neve que ficava azul. Eram os camponeses que desciam das montanhas e vinham para a missa do galo. Em sua rude simplicidade, era esta a forma com a qual faziam carícias ao Menino Tenro que sorria entre o boi e o asno. A missa da meia-noite foi linda. Cantada pelos camponeses, vestidos de calças de couro até o joelho, com grossas meias e ainda mais grossos sapatões. Tocaram seus instrumentos, com melodias típicas da Baviera. Pareciam e bem podiam ser os pastores de Belém. Quando tudo acabou, fez-se grande silêncio. Pelos vales, viam-se luzinhas andando. Eram eles que regressavam pressurosos, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto.

Pela 1,30 hora da madrugada, soa a campainha do convento. Uma velhinha está na porta. Segura uma lanterna acesa. Toda envolta num grosso manto cinza. Trazia um pequeno pacote. Disse: “É para o Paterle (padrezinho) estrangeiro que estava na missa do galo”. Fui chamado. Entregou-me o pacote, todo enfeitado, com breves palavras: “O sr está longe de sua pátria. Distante dos seus. Aqui, um pequeno presentinho para o sr. Também para o sr hoje é Natal”. Apertou-me fortemente a mão e se afastou na noite abençoada pela neve.

No quarto, sozinho, enquanto ruminava imagens do Natal em casa, muito do estilo como este, mas sem a neve, desfiz, com reverência o pacote. Era uma grossa vela. Vermelho-escura. Toda trabalhada. Com um grosso suporte de metal. Uma luzinha iluminou a noite da solidão. As sombras se projetavam trêmulas e longas na parede. Não me senti mais só. Fora da pátria havia acontecido o milagre de todo o Natal: a festa da fraternidade de todos os homens. Alguém compreendeu a mensagem do Menino: fez do estranho um próximo e do estrangeiro um irmão.

Hoje ainda, após alguns anos, a vela natalina vela pelo Natal sobre a estante de livros. Todos os anos, na noite santa, ela se acende. E irá acender-se sempre. Ao iluminar, ela recordará uma noite feliz, na neve, na solidão. Traz à memória o presentear que é mais do que dar. Ela re-presenta o Natal com tudo aquilo e que ele significa de humano e de divino. Esta vela natalina é mais do que uma vela qualquer, por mais artística que seja. É um sacramento natalino.

De Leonardo Boff em Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos.